Da Falibilidade que levo dentro

Ando às voltas com essa que tem os braços dados com a Impermanência e me faz lembrar que tudo o que é perfeito e arranjado demais, simétrico e combinando demais, planejado e previsível demais, limpo e plástico demais pode até ter seu valor, mas em dois segundos podem me enfadar tremendamente.
Ela ronda minha cozinha e dá as caras na lasca de bolo que se agarrou à forma e não quer sair, no pão que amorenou dum lado só, no arroz que não temperei, na receita que não vingou mas me divertiu, naquele naco amassado da pera suculenta.
Faz aparição também nesse blog, na foto em que eu, emocionada, errei a mão e saiu desfocada, naquela outra que consegui focar e enquadrei mal e ainda assim gosto por causa do que nela está. Nas histórias contadas de sopetão, nos dias e semanas sem escrever, no visual que nunca chego a consertar, nas receitas mais ou menos, nos ditos meio-ditos.
Ao perceber o encanto da falibilidade dos outros, das músicas cantadas e sentidas intensamente em que a voz ou as notas se perdem, nas pessoas que deslizam e voltam atrás, nas que pedem desculpas, nas que se notam matizes diferentes e muitas vezes anacrônicos, na louça nicada do restaurante, me dou conta da minha própria.
E me olho no espelho, percebo minhas assimetrias e pintas e cicatrizes. E olho pra cá e vejo a irregularidade de frequencia, qualidade e sentimento dos posts e fotos. E olho pra dentro e ali está ela, nos meus pensamentos, atitudes, sentimentos, tropeços reais e mentais, pequenos acidentes que às vezes descosturam vestidos ou abrem um buraquinho na alma.
É nesse instante percebo que se ando às voltas com ela, que consciente ou inconscientemente a busco no que vejo, ouço, cozinho, como e sinto, e se ela vive tão intensamente dentro de mim, então é porque assim é que tem de ser. E então é chegada a hora de eu olhar bem nos olhos dela e pedir que, uma vez que já mora aqui dentro, que se sinta à vontade e alegre meus dias com suas pequenas estripulias de comidas que não saem bem na foto mas são gostosas demais, com a surpresa do desafino e descompasso da música linda, com os textos que não são nenhuma obra-prima mas que transmitem sentimento para uma meia-dúzia de pessoas queridas, com os tropeços reais e mentais que de mim fazem parte.
Só não se empolgue, por favor, Dona Falibilidade, pois não vejo nenhum encanto em quebrar um copo antes de sair de casa, perder o salto do sapato e levar aquele estabaco com bolsa, mochila, casaco, cachecol e celular a 5 metros de entrar na reunião.

Ando às voltas com essa que tem os braços dados com a Impermanência e me faz lembrar que tudo o que é perfeito e arranjado demais, simétrico e combinando demais, planejado e previsível demais, limpo e plástico demais pode até ter seu valor, mas em dois segundos me enfada tremendamente.

Ela ronda minha cozinha e dá as caras na lasca de bolo que se agarrou à forma e não quer sair, no pão que amorenou dum lado só, no arroz que não temperei, na receita que não vingou mas me divertiu, naquele naco amassado da pera suculenta.

Faz aparição constante também nesse blog, na foto em que eu, emocionada, errei a mão e saiu desfocada, naquela outra que consegui focar e enquadrei mal e ainda assim gosto por causa do que nela está, nas histórias contadas de sopetão, longas ou curtas demais, nos dias e semanas sem escrever, no visual que nunca chego a consertar, nas receitas mais ou menos, nos ditos meio ditos.

Ao perceber o encanto da falibilidade dos outros, das músicas em que a voz ou as notas se perdem por um segundo, nas pessoas que deslizam e voltam atrás, nas que pedem desculpas, nas que se notam matizes diferentes e muitas vezes anacrônicos, na louça nicada do restaurante, me dou conta da minha própria.

E me olho no espelho, percebo minhas assimetrias e pintas e cicatrizes e dentes. E olho pra cá e vejo a irregularidade de frequencia, qualidade e sentimento dos posts e fotos. E olho pra dentro e ali está ela, nos meus pensamentos, atitudes, sentimentos, tropeços reais e mentais, pequenos acidentes que às vezes descosturam vestidos no meio da tarde ou abrem um rasguinho na alma.

Nesse instante percebo que se ando às voltas com ela, que se consciente ou inconscientemente a busco no que vejo, ouço, cozinho, como e sinto, que se ela vive tão intensamente dentro de mim, então é porque assim é. E se é assim chega a hora de eu olhar bem nos olhos dela e pedir que, uma vez que já mora aqui dentro, que se sinta à vontade e alegre meus dias com suas pequenas estripulias de comidas que não saem bem na foto mas são gostosas demais, com a surpresa do desafino e descompasso da música linda, com os textos que não são nenhuma obra-prima mas que transmitem sentimento para uma meia-dúzia de pessoas queridas, com os tropeços reais e mentais que de mim fazem parte.

Só não se empolgue, por favor, Dona Falibilidade, pois não vejo nenhum encanto em quebrar um copo antes de sair de casa, perder o salto do sapato, em seguida levar aquele estabaco e cair de quatro com bolsa, mochila, casaco, cachecol e celular a 5 metros de entrar na reunião.



12 comentários em “Da Falibilidade que levo dentro

  1. Ana

    Não sou nada perfeccionista e acho que a graça da vida está mesmo nestas “falhas” inesperadas, no que sai do lugar comum, no que ousa ser diferente!
    Gostei muito de refletir sobre isso, ao te ler.
    Beijooo!

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  2. Babbo

    É de encher os olhos decantando lágrimas de profunda alegria. Dona Dadivosa, é incrível como a Sra Falibilidade nos coloca no prumo de nossa caminhada de debaixo do sol. Continue cm essa ternura e liberdade em escrever que nos faz tão bem um grande beijo. Ah leia o livro” Quem está no comando? de Ori Brafman e Rod A. Beckstrom. Creio que nos ajuda muito sobre algo desestruturado que se movimenta de uma maneira muito pura. Um grande beijo. Babbo

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  3. Fabiane

    O adjetivo que cabe a este texto sobre Falibilidade chega a ser contraditório:IMPECÁVEL! Parabéns mais uma vez pela destreza e sensibilidade com que usa as palavras. Ler o que escreve chega a deixar um doce sabor na alma da gente. Feliz Natale e um grande abraço!

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  4. Debora Murbach

    Dar espaço em sua vida para a falibilidade é uma das chaves de bem viver. Falíveis somos, fomos e seremos sempre. E a luta para atingir um pouquinho mais de “categoria” ganha bom humor quando conseguimos rir das nossas falhas. É preciso amar a si mesmo apesar delas! Beijão!

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  5. Lucio K

    Que manifesto feminino! Lindamente escrito. Voce é uma jóia rara. E, com a licença pra um auto-marketing-cara-de-pau, me lembrou meu texto sobre o “complexo de perfeição”.. é só clicar no link aí no meu nome pra ve-lo. besos!

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