Quiche Lorraine e a razão das coisas

Ovo, manteiga, farinha, creme de leite. A depender da técnica utilizada e dos apetrechos que se adiciona, esse quarteto pode virar uma lasanha de toda vida, uma torta de fruta daquelas de padaria, uma cuca de nata, um bolo de casamento, um delicioso improviso de restinhos da despensa, um desastre total.

Vai depender da atenção e habilidade do(a) cozinheiro(a) e da qualidade dos ingredientes, obviamente, mas que não se despreze a influência da proporção entre líquidos, pós, gorduras, proteínas e açúcares no sucesso da empreitada culinária, do quase mágico equilíbrio que faz crescer o pão, inflar o suflê, dar a liga na massa, engrossar o caldo e amaciar a carne.

Mágico equilíbrio esse que vai se restabelecendo beeeeeeem aos poucos em outros domínios, na medida em que retomo o controle do fogão. Ao mesmo tempo causa e efeito, cara e coroa, fixação e tratamento, é cozinhando que repasso as prioridades, me dou conta do que falta, comemoro a saúde da dóga Frida que recupera o peso perdido após uma cirurgia e três complicadas semanas de internação, alivio a tensão de um trânsito ao qual não estava mais acostumada (já estive?), tento abafar o barulho da rua com o shhhhh do refogado, nada do que não era antes quando não somos mutantes, pergunto mentalmente a mim mesma como foi meu dia do mesmo jeito que fazia enquanto estava longe, preparo os petiscos que testemunham aquelas conversas e olhares e carinhos que por vários meses no período de um ano não podiam acontecer à mesma mesa, na mesma casa, na nossa casa.

Porque ao voltar pra nossa casa, pelo menos nesse começo, sou e não sou a mesma, entendo e não entendo a cidade, gosto e desgosto dos barulhos, tiro de letra o que antes parecia difícil, demoro a sacaro que antes era tão  fácil, acordo de madrugada, capoto de sono num sábado de sol. Mas tenho pra mim que esse suflê vai crescer bonito, Leitor e Leitora queridos, uma vez que começo a botar ordem nesse galinheiro e dar à cada coisa seu devido espaço.

Porque tenho pra mim que  existe, para cada um, uma espécie de proporção áurea a ser perseguida, um equilíbrio saudável entre família, amigos, trabalho, atividade física, aprendizado, lazer… e enquanto a dor entre ombro esquerdo e pescoço me avisa que preciso fazer exercício, treino razões perfeitas na cozinha. Um programinha instalado no celular, o aplicativo “Ratio“, derivado do livro homônimo do Michael Ruhlman me diz, por exemplo, que uma massa de torta se faz com farinha, manteiga e água na razão de 3:2:1. E que a consistência do recheio se garante em uma parte de ovo para duas de líquido. Catei manteiga, farinha, água, ovos, creme de leite, queijo e bacon e fiz uma quiche. Uma cremosa e abusada quiche lorraine pro jantar.

Ingredientes:

  • 140 gramas de manteiga gelada em cubos
  • 210 g de farinha
  • 70 ml de água gelada
  • 1/4 de colher de chá de sal
  • 3 ovos
  • 360 ml de creme de leite fresco
  • pitada de noz-moscada
  • pitada de pimenta-do-reino branca
  • 100g de queijo gruyère ralado no ralo grosso
  • 1/4 de xícara de bacon (usei a parte magra) em pedaços finos
  • sal a gosto

Como fazer:

  1. Misture o sal à farinha. Acrescente a manteiga e, com as pontas dos dedos, vá incorporando a manteiga e a farinha em movimentos rápidos, formando uma farofa com grumos do tamanho, mais ou menos, de ervilhas.
  2. Acrescente a água gelada, forme uma bola com a massa (sem manipular demais, basta juntar os farelos), embrulhe-a em papel-filme e deixe-a descansando na geladeira por no mínimo 20 minutos.
  3. Após esse tempo, ligue o forno em temperatura média.
  4. Em superfície enfarinhada, abra a massa com um rolo, deite-a na forma, acerte as beiradas, cubra tudo com papel alumínio, despeje meio quilo de feijão cru sobre o papel papel e leve a massa ao forno até secar bem.
  5. Enquanto isso, frite o bacon na própria gordura em uma frigideira e reserve.
  6. Retire os grãos com cuidado (pode deixar esfriar e guardar para cozinhar outro dia, o papel dele foi só evitar que a massa perdesse a forma com o pré-cozimento), retire também o papel alumínio.
  7. Faça o recheio: misture os ovos com o creme, até homogeneizar, adicione a noz-moscada e a pimenta, junte o queijo e sal a gosto (cuidado, que logo mais vem o bacon). Despeje o recheio na massa pré-assada, espalhe o bacon por cima e leve ao forno novamente até firmar e dourar o creme do recheio. Espere uns cinco a dez minutinhos antes de cortar.


4 comentários em “Quiche Lorraine e a razão das coisas

  1. Dani

    Tenho uma pergunta… sou iniciante no prazer de cozinhar, então as vezes me faltam umas informações básicas… tipo… em que forma eu faço isso? tem que ser naquelas que desprendem o fundo? se for em forma fixa, como eu desenformo?
    Gostei muito da poesia do seu blog e das suas reflexões…
    Obrigada!

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *




Arquivos

Newsletter

Assine para receber no seu e-mail