De etiquetas, cabelos ao vento e volta pra casa

Aos poucos, vou restabelecendo as coisas nesse blog, que tanto sofreu com meu descaso, com a troca de roupa provocada por ataques de hackers e com a desconfiguração de uma montoeira de coisas no caminho. Pouco a pouco vou pendurando etiquetas, as “tags”, em cada uma das cerca de 500 postagens escrevinhadas e fotografadas nesses 4 anos e pouco.

Junto com as categorias (Escritos, Pitadas ou Receitas, por enquanto), são elas que vão ajudar o Leitor ou a Leitora a entender como (des)organizei tudo isso. É até gostoso ver as fotos escuras e granuladas do começo (não que tenham melhorado muito) e a timidez das primeiras publicações, que tinham só a receita, pura e dura. Bom reler alguns escritos de que continuo gostando, mais que nada porque continuam a refletir uma parte bem gorda do que sou. Alguns desses etiquetei como “família” e preciso dar outra volta para ver se não levariam pendurado esse pedacinho de papel invisível quase todos os escritos e receitas em que escancaro a alma.

São lembranças e sentimentos de pai, mãe, irmãos, amigos, vós, tios e tias que de mim fazem parte e com os quais, daqui dessa lonjura, sinto o laço apertar ainda mais, espremendo água do zóio. Como esse texto que rerererererevisitei agora há pouco, desta vez com Mr. Dadivoso lendo cada parágrafo em voz alta (gosto tanto quando lê em voz alta, acho que nunca disse isso pra ele nesses 7 anos de matrimônio) do outro lado do mundo. E pela trocentésima vez, nas mesmas linhas, senti os cantos da boca se repuxarem num beiço horroroso (como agora, só de lembrar)  e soltar um buáá desafinado.

Em duas, especificamente, Mr. Dadivoso parou, olhou pra câmera e me consolou com um ôôôô, neguinha…: quando ela fala que o marido a faz uma pessoa melhor (isso sim, já disse pra ele) e quando se dá conta de que quer estar perto para ver os cabelos de seus pais se mexendo no vento da praia. Vários são os temas e meandros desse texto que me dão cosquinha na alma, reafirmo.

Mas isso do amor de pai, mãe, marido, amigos, tios, tias, primos e primas, agregados e desconhecidos, de parar para olhar a vida, de às vezes sentir desconforto no conforto, de ser e escrever e as duas coisas ao mesmo tempo me derruba mesmo os cantos da boca e me faz pensar agora se de repente não deveria mudar completamente o sistema de etiquetas que venho consertando há umas duas semanas, pouquinho a pouquinho, enquanto releio parte dos arquivos desse blog e me deixo levar.

Porque nos breves intervalos dessas semanas tão corridas, me estou deixando levar em pedacinhos. Porque meus 12 meses em Madri estão muito perto de serem completados, o que significa que está chegando a hora de estar fisicamente mais próxima dos meus amores, amigos, tios, tias etc.

Também aí em casa, nos intervalos das semanas corridas que vem pela frente, me deixarei levar: pela delícia dos colos, almoços, pizzas de bairro, cafés da manhã e da tarde e de depois do almoço e de depois do jantar (não me faz mais efeito, a cafeína, durmo como se tivesse tomado um chazinho de melissa). Prevejo, além de tudo isso, um reencontro paulatino e igual de bom com minha cozinha, meus desastres e descobertas, desconcertos e pequenos triunfos.

Levo o hábito de comer pão com azeite de manhã (às vezes com tomate também), a reorganização de hábitos de consumo provocada pela microgeladeira, as panelas coloridas que me fizeram companhia, uns quantos livros e revistas de comida que acumulei, alguns cabelos brancos a mais (daqueles que viram antenas e não se mexem nem com vento sul), a certeza de que não combino com esses fogões de vitrocerâmica, uma que outra receita espanhola bem aprendida, a vontade de bater um bolinho e assá-lo num forno “de fogo” e os sentidos à flor da pele para absorver (ou repelir) todo o bom (ou o menos bom, porque assim é às vezes, sobretudo quando a gente se mexe) que me espera pela frente.



8 comentários em “De etiquetas, cabelos ao vento e volta pra casa

  1. Karina Batista

    Oi querida, quanto tempo faz que não passo por aqui. Parece que foi ontem quando escrevi para pedir informações sobre Madri. Lembra? A filhota de minha amiga já cumpriu sua jornada por aí e voltou para casa há pouco tempo. Pelo que sei, voltou craque no espanhol, fez amigos por aí, mas sentia muita falta daqui. Espero que fique tudo bem por aí e que você tenha um bom fim de semana

    Karina, obrigada por voltar pra contar da menina, fico muito contente que ela tenha aproveitado seus dias em Madri, que é uma cidade linda e acolhedora! Um beijo grande e boa semana pra você também.

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  2. Fer Guimaraes Rosa

    Querida Fer,

    Incrivel como o tempo voa, sua estadia ai passou tao rapido. Admiro sua coragem, já te disse, porque não é facil enfrentar uma mudança assim, muito menos sozinha. Mas você fez! E logo estara de volta ao aconchego da familia, com certeza muito mais experiente e madura. Um beijo,

    Fer, mais lágrimas por aqui… seu comentário abriu de novo a torneirinha e só agora, mais recuperada, consegui responder. Está mesmo passando muito rápido e Madri também vai ficar no meu coração. Um beijo, queridona!

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  3. Fernanda

    Muito lindo seu texto…quem abriu a torneirinha fui eu…Sei o q é estar longe de casa (do país) e por mais que a experiência seja gratificante não há nada como estar perto de quem se ama, não há nada melhor do que “estar perto para ver os cabelos de seus pais se mexendo no vento da praia”, mesmo e principalmente porque o cabelo deles vai ficando cada dia mais branco…enfim…vou parar por aqui :)
    Te desejo tudo de bom no regresso à casa e na despedida do que no último ano foi sua casa. Muitas felicidades pois você! E boa sorte na (des)organização do Blog! He he he.
    Um beijo

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  4. Alexandre Inagaki

    Creio que a gente precisa de certa distância, tanto temporal quanto geográfica, para saber valorizar devidamente as coisas que dão sentido à nossa passagem por este mundo. Me identifiquei em especial no trecho que você fala do descaso com o blog. Eu, que devo tantas coisas, sejam pessoais ou profissionais, ao meu blog, preciso me programar melhor para dedicar a atenção merecida ao meu cafofo virtual, tão surrado ultimamente. Em tempo: minha irmã mora em Madri há 5 anos. Espero conseguir conhecer essa cidade ainda neste ano… Um abraço, obrigado pelas boas leituras e que Madri deixe marcas boas e perenes nas tuas lembranças!

    Ina, tenho pra mim que nossos cafofos nos entendem… estão sempre aí, prontos a receber nossas letras. Madri tem muitos encantos e tem deixado boas marcas, sim. Vale a pena conhecê-la, nem que sea por uma semaninha :) Obrigada pela visita e pelas palavras queridas ;***

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  5. Dadivoso

    Oi Nega, que saudade! Esse seu texto deixou nossos amigos com ciúmes. Acabamos de voltar do tradicional churrasco no Wago e ele ficou me enxendo a paciência (rsrsrs) sobre sua declaração de amor. Daqui a pouco estaremos juntos de novo, pra continuarmos construindo nossos caminhos, agora mais pertinho. Puxa vida, nem parece que foi um ano, parecem uns 10 anos de experiências e superações acumuladas e a cada dia a certeza de que somos melhores juntos e que continuamos abraçando nossos laços em direção a um futuro cada dia melhor e mais próximo dos que amamos. Agora falta pouco! Amo vc!

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  6. rosanaalmoualem

    A filha não encontro palavras a emoção agarra e ai já´sabe um choro só.Só resta uma palavra sai já´de ai patrão .bjs

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  7. Faby

    Amiga, lindo o seu texto (como todos que vc escreve aliás), lindo o comentário amoroso do Sr. Dadivoso e, mais lindo ainda, saber que vc logo estará de volta, coisa que eu bem sei que vc tanto queria :)

    Volta logo que estamos todos saudosos!!!

    Bjim,
    Faby

    Parece que quanto menos dias faltam, mais a saudade aperta… estou quase pronta para enfrentar o trânsito outra vez… quaaaase. Un beso ;***

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  8. Larissa

    Toc toc, posso entrar? Esse texto me deixou com uma profunda sensãção de intimidade. Parece que entrei em um ambiente claro, acolhedor e íntimo, numa casa, numa morada interior. Belo texto, belo blog. É uma dádiva passar por aqui para ler seus escritos. Grande beijo.

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