Alles Gut? Alles Blau!

Tio Herbert, o Réba, costumava nos saudar em alemão. Perguntava se estava tudo bem – Alles gut?? –  e os sobrinhos-netos respondiam, assim que aprendiam a falar, que estava tudo azul – Alles blau, Réba!!!

Para chegar na casa do Réba e da Dada, bastava atravessar a rua, ao lado da ponte sobre o rio que passa ao lado da casa da mãe. Rio esse que transbordava com vontade a cada chuva mais intensa, como aquela de 83, que desabrigou e flagelou muita gente, destruiu Blumenau e deu origem à Oktoberfest. Tal e qual todos que conheço da minha geração, acompanhava pela TV com olhos tristes e assustados , ajudava a separar roupas e latas de leite e o que se podia doar.

Em 83 (ou no seguinte, não lembro bem), tive novos coleguinhas na escola. Eles vinham do Vale do Itajaí, região mais castigada pela cheia. Tinham o olhar ao mesmo tempo triste e assustado e ficaram pouquíssimo tempo, apenas o suficiente para que seus pais reconstruíssem a casa e restabelecessem a rotina. Não tenho lembrança de como ficou a casa do Réba e da Dada nesse ano, nem como foi a enchente na vizinhança. Mas lembro do menino de cabelos quase brancos que não falava com ninguém, não se adaptou, não comia o lanche, só chorava.

Dessa vez o rio que passa ao lado da casa da mãe se comportou, em parte pelas obras de desaçoreamento e de reconstrução da ponte que caiu perto do Natal de 95. Em 95 a Dinahzinha tinha três meses. O Réba não vivia mais, a Dada já tinha ido morar com a vó, acho. Quando a chuva apertou, seguimos o ritual familiar de ligar uns para os outros para saber a altura do rio, perguntar se estavam bem, se já tinha entrado água na casa do tio Paulinho, do Ti Mito, quem já tinha ido ajudar a vó e a Dada. Em seguida, barricada no portão, massa para vedar as portas, erguer móveis, fazer três buracos num saco de lixo para vestir como camiseta, calçar botas de borracha e ir pra rua ajudar os vizinhos e vigiar o rio na madrugada.

O terreno do vizinho da direita é mais baixo, ali sempre enchia. E tínhamos uma rotina, um acordo tácito. Quando a água chegava no terreno do lado, iam todos lá pra casa. Eu punha água pra ferver, fazia o café para varar a madrugada, ajeitávamos comida num cantinho da mesa, as gavetas iam para cima da cama, as roupas para o maleiro, os sofás, freezer e geladeira para cima de latas de tinta reservadas exclusivamente para esse fim, normalmente só por precaução.

Mas em 95 a água começou a subir pelos ralos. Primeiro uma agüinha limpa, depois uma lama vermelha. Quando nos cobriu os pés, choramos todos. Não pelo estrago, e sim pela impotência diante daquilo tudo. Mas não havia tempo para chorar, teríamos muito trabalho pela frente, como o de desparafusar as grades do meu quarto para pular a janela e atravessar a correnteza com cuidado e a ceia de Natal pela metade nas mãos para o abrigo no sobrado do vizinho da esquerda. Acho que o pai fez uma oração, comemos em silêncio e cansaço, sem luz e sem água, na cidade ilhada pela queda de uma barreira na BR-101. Ninguém dormiu.

No dia seguinte, mais café e pão para começar a limpeza. Rodos, vassouras, cada um tirava forças não sei de onde, depois de uma noite em claro de muito erguer coisas, para ajudar a empurrar a lama para fora das casas. Quando o grosso da sujeira já estava lá fora, mais chuva. A água subiu de novo com mais lama, dessa vez só de pirraça, bem mais baixa, ainda assim assustadora. Os rapazes, primos, amigos, namorados, corriam de casa em casa para fazer o serviço mais pesado. Todos se revezavam para ajudar a vó e a Dada, que haviam sido devidamente instaladas no sótão sequinho e terminantemente proibidas de descer. E elas obedeceram, pois o perigo de escorregar na lama ou pegar uma doença era grande.

Depois do susto e do primeiro choro, o clima não era de festa, mas tampouco de tristeza. À medida que a água baixava, a gente se permitia fazer umas macaquices, ‘inticar’ uns com os outros para relaxar, levar mais um café para os tios e primos, rir com o Eduardo que acordou com a água batendo no traseiro, confraternizar como se podia, com pão dormido e margarina, que fosse.

Todos recuperaram o que foi perdido, as casa da mãe foi pintada por dentro e por fora, já não havia mais a marca de lama a dois ou três palmos do chão, carpetes foram trocados, móveis aos poucos substituídos, jardins replantados. A solidariedade a gente agradecia no olhar e nas gentilezas de sempre, quem sabe levando um bolinho recém-assado, ninguém se sentia muito à vontade para relembrar aquelas noites e dias.

Muito menos eu, que hoje acompanho assustada, de longe,  as notícias. Dessa vez, menos pela TV e mais pela internet, pelo Diarinho e sites amigos, como o do Dauro e da AnaCris. Segurei as lágrimas o quanto deu, mas fraquejei quando vi que a expressão preferida do Réba e de tantos outros descendentes de alemães do Sul do Brasil tinha virado sinônimo de solidariedade e de uma fantástica mobilização informativa no https://allesblau.net/. O Leitor e a Leitora que quiserem ajudar podem encontrar informações ali.

Sei que em algumas casas o trabalho de limpeza e reconstrução já começou, que o pessoal está fervendo água para ao café e repartindo o pão com os vizinhos e que logo logo vai repintar as casinhas, replantar os jardins, agradecer com o olhar ou uma cuca de banana quentinha. Enquanto isso, toda ajuda é bem-vinda para que fique tudo bem, tudo azul. E para que, aos pouquinhos, eles recomecem a falar e ouvir Alles Gut? Alles Blau!



12 comentários em “Alles Gut? Alles Blau!

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  2. Karla

    Que lindo, Dadi.
    Fico tão aflita com tudo.
    Me apavoro e me vejo tomada por uma vontade de pegar todos eles, especialmente crianças e idosos, e trazer pra casa, dividir uma sopa e dar cama quentinha.
    Que os governantes possam tomar medidas que diminuam os impactos ambientais e reduzam esses efeitos tão drásticos no futuro e todos encontrem forças pra retomar a vida e reconstruir suas histórias.
    Bjs

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  3. Iraide Gondim

    É muito triste o que tem acontecido em Santa Catarina. É realmente uma situação desoladora. A sua sensibilidade transborda nas suas recordações e dá pra imaginar o que vc sente quando ver as notícias. Tenhamos fé em Deus que tudo se resolverá.
    Bjs,
    Iraide

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  4. biagoll

    Eu sou de Blumenau, e toda a minha familia e de meu marido estão lá, muito difícil ficar diariamente ligando para pais ,irmãos , tios , primos, averiguar se todos ainda estão bem, saber que casas continuam caindo, muita gente querida que perdeu tudo, graças a Deus todos os conhecidos estão vivos, mas desolados com tantas mortes e destruição. Desta vez está diferente das outras, nunca caiu tanto morro, tbém ajudei em várias limpezas de enchente, mas agora tenho tios que não tem mais casa pra limpar…Desejo sorte para teus familiares e conhecidos, assim que parar a chuva vou pro sul ajudar parentes e amigos, quem sabe nos encontramos la. Abç,Bia

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  5. Pri Foureaux

    Oi querida Dadivosa!

    Todos os dias, quando ligo a TV e vejo a luta de Santa Catarina em se reconstruir, a acolher aqueles que mais precisam, que se atolam para buscar aquele vizinho ali, perdido sem saber o que fazer, me lembro das suas palavras.
    E todas as noites, peço à Deus compaixão a este povo.
    Gostaria de presenciar as cucas fresquinhas preparadas, em uma nova cidade, onde todos acolhidos em suas novas casas, em paz, por terem tido a oportunidade de recomeçar…mas daí é só começar uma nova história, e deixar este exemplo tão sublime que é a solidariedade.

    Beijos

    Pri

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  6. Manu

    Dadi,
    Nem me fale… hoje conversei com uma amiga, e ela disse que depois de acabar com algumas cidades, a situação em Floripa está ficando pior. Desde quedas de barreiras a alagamentos, na própria ilha…
    Acompanhei as notícias com muita tristeza, mas estou mobilizando as pessoas, a gente tem que fazer algo!
    Um abraço!

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  7. Yuli

    Da enchente de 83 não me recordo… mas a de 95 me lembro bem.
    Como vedávamos todas as portas de casa, quando a água começou a subir pelos ralos precisamos desparafusar as grades de uma janela para sair de casa.
    Minha missão foi cuidar da Dinahzinha que tinha apenas 3 meses, conseguimos levar para o sobrado do vizinho da esquerda uma lata de leite em pó e tivemos sorte de eles terem como ferver água para a mamadeira.
    Naquela longa noite comemos produtos de uma cesta de natal e alguns pães que conseguimos comprar antes de a água invadir as prateleiras mais altas da padaria. Era um pãozinho doce, meio amarelinho… sempre que o vejo lembro deste Natal de 95.

    Mas sempre que lembro deste Natal dou risadas do Eduardo chegando lá em casa comentando que estava dormindo e acordou com a água batendo no traseiro, e que quando viu aquela escovinha de limpar privada boiando saiu de casa :)

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  8. nysa

    gostei muito deste teu relato. vivo na alemanha e gracas a deus nao sei o que é uma cheia. a expressao “alles blau” nao conheco, embora tenha nascido por cá e sempre vivido cá. tive que sorrir quando li blumenau, pois há uma parte da cidade de munique que se chama assim. espero que tudo corra bem por aí. beijo e tudo de bom!!!

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