De madeleines e chocolate

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Acordo antes e sem fome, às vezes acontece. Chove uma mistura de água e gelo, começo a ler um livro de trás para a frente que mata, ao mesmo tempo, duas fomes de aprender. É uma pequena antologia literária dedicada à gastronomia e está em francês.

Na página 613,  as madeleines de Marcel Proust. Mais comentado do que lido, o texto é mesmo um primor. O bolinho em forma de concha, molhado no chá de tília, transporta o autor para sua infância e virou sinônimo de epifania gastronômica. Todo mundo tem uma madeleine. Ou um pão de queijo, uma carne assada de panela, um feijão com ovo frito, uma baciada de bolinhos de chuva. Com mais ou menos talento, escreve-se bastante sobre reminiscências gastronômicas e rebuscadas epifanias provocadas por uma refeição ou parte dela. Máquinas do tempo aos goles e bocados, a comida tem mesmo o poder de levar a gente pro passado.

O texto seguinte, de Alexandre Dumas, é sobre a chegada do chocolate à Europa no século XVII. Diz que em dado momento bebia-se mais chocolate do que café. Deu vontade. Larguei o livro aberto no sofá e fui ferver uma água, encontrei um cacau em pó no fundo da despensa. Duas colheres de sopa na caneca, água fervente até quase a borda, um pouco de leite gelado. Ficou escuro, amargo, empelotado, intragável. Joguei meia caneca fora, completei com leite e se não tem tu, vai tu mesmo. Bebi a metade ali, de pé, entre a pia com a louça de ontem pra lavar e o fogão, ouvindo a chuva bater na janela-claraboia inclinada.

Em cima da mesa, sobre a caixa de ovos, um papel com a receita das madeleines que ainda não fiz. Em poucos dias vou embora, como passou rápido mais uma vez. Preciso comprar geladeira e fogão, religar TV a cabo, contratar internet, fazer imposto de renda, preguiça de desencaixotar a mudança, imagina a poeira que acumulou em quase dois meses, não vou dar conta de tudo sozinha, será que consigo contratar alguém para fazer uma faxina daquelas, sinto até um ruim por dentro.

Saio da cozinha gelada, tento não fazer barulho. Ali na cama, o casulo de edredons deixa de fora uma barba de sete dias, um sorriso e a respiração profunda de quem sonha um sonho bom. Lembro do beijo de boa noite, do braço que me puxou para mais perto no meio da madrugada. Sorrio também e ouço minha respiração acalmar até alcançar o ritmo preguiçoso dos suspiros dele. Esqueço dos impostos, das compras por fazer, da despedida iminente. Levo um susto com o barulho repentino do antigo aquecedor a gás. O casulo resmunga e vira para o outro lado. Sorrio mais ainda, sinto até um quentinho por dentro, posso dizer que apenas estou.

Tomo, contrariada, o último gole de chocolate quente. Não, não estava bom. Áspero na garganta, amargo demais, gosto de prateleira, acho que o cacau passou da validade. Não tive uma epifania, não lembrei da infância não viajei no tempo. Ao contrário, fiquei bem aqui, paradinha, estacionada no instante. Enxerguei, ouvi e senti o aqui e o agora. E foi reconfortante, delicioso, revelador. Meditação aos goles e bocados para quem estiver disposto, a comida oferece também a dádiva de viver o presente.  



7 comentários em “De madeleines e chocolate

  1. Luciene

    não só a comida, mas mais precisamente o ato de cozinhar é o que me faz meditar assim – focada no presente, na precisão da faca, no instante que o alho doura, que o arroz não gruda, no ponto do molho, das claras em pico. um momento que se perde e lá se foi! e depois, a refeição: tanto para só alguns minutos de consumação – mastiga, mastiga e acaba. até a próxima refeição.

    a vida é como a fome, não cessa. até parar.

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  2. Tabita

    Me encontrei nas suas palavras. Tenho essa ligação com cores e aromas…a comida transporta os sentimentos e é delicioso ler e sentir quem vive assim… Fiquei com a curiosidade do sabor do chá… Rs

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