12.09.08
Publicado em às 7:52 am pela Dadivosa

Morava numa cidade onde havia, em quase todo bairro, um indiano em cada esquina, indiano servindo para designar desde lojinhas de conveniência que vendiam leite com prazo de validade vencido, até portinhas quase suspeitas que entregavam fumegantes e aromáticas refeições em embalagens de alumínio, passando pelos movimentados restaurantes de paredes vermelhas com garçons de reluzentes cabelos negros e profundos olhos amendoados.
Variados foram os momentos felizes que tiveram o aroma das especiarias indianas como pano de fundo. No indiano da esquina dava um pulo naquelas horas em que me agarrava a vontade de bater um bolinho de cenoura e, no meio da função, descobria estar sem chocolate para a cobertura, pois o mercado mais próximo era longe demais para o adiantado da hora ou para o frio que fazia.
Era para o indiano da esquina que ligávamos quando não havia energia ou tempo para preparar o jantar, já que batatas fritas, sanduíches e pizzas de massa grossa não nos apeteciam, já havíamos recorrido ao chinês da esquina há poucas semanas e se era para comer algo em frente à TV, então que fosse gostoso, colorido, repleto de vegetais, com diversão para a boca e acalanto para o coração.
Foi num restaurante de paredes vermelhas e garçons de cabelo lustroso e olhos amendoados que, diante de um copo de lassi e em meio às palavras desconexas de uma frase desastrada, ensaiada e disfarçadamente corriqueira, ouvi um tímido e apaixonado eu te amo num idioma que não era o meu.
A paixão foi um pouco mais intensa e durou um tanto mais do que o ardido daquele frango ao curry que me arrebatou as pupilas gustativas e cujo fogaréu nem o lassi deu conta de abrandar. Vão-se os amores, ficam os sabores, já disse d’outra feita. E meu caso de amor com as especiarias indianas tem hoje mais anos de vida do que qualquer namoro ou casamento, daqui e d’alhures.
Pode ser pela conveniência de estar sempre logo ali, pode até bem ser pela alegria de receber à porta a pequena pilha de quentinhas variadas quando o estômago ronca e não há forças para ir ao fogão. Suspeito, no entanto, que foi a lembrança daquela noite no restaurante, da tão singela e ao mesmo tempo forte declaração de amor, da simpatia e cumplicidade dos garçons do cabelos pretos, do coração que pulava pela boca dormente de pimenta, do lassi geladinho a descer pela garganta, do sorriso bobo e das lágrimas que escapavam dos olhos de nós dois, que o curry ficou pra sempre marcado em minha memória gustativo-afetiva como ingrediente aconchegante, perfeito para comidas de alma.
Nostalgia é falta de memória, e enquanto revivo o momento para encontrar lá no fundo do baú as palavras que possam descrever a primeira vez que experimentei um curry típico, são mais nítidas as paredes, os barulhos, o tilintar dos talheres, os aromas e a ardência da língua do que a expressão facial, as palavras, a data, o bairro, a voz e o sotaque exato que me proporcionaram aquele momento tão caro. Se é verdade que o sapateiro olha pro sapato, a cozinheira em mim fez questão de lembrar com fidelidade a sensação do tempero, a despeito do que lhe disse o rapaz por quem estava enamorada.
O curry é feito homem inebriante e exótico, tinhoso e doce, gentil e cheiroso, forte e adorável, um ciumento incorrigível. Não dá bola pra chimango, acachapa a concorrência e faz soressair seus encantos diante de todo e qualquer outro ser vivente. Reina em minha despensa desde então, até pouco tempo somente na versão em pó. Foi uma rainha que me fez lembrar que tinha dele outra versão a testar.
Em formato de pasta, empreguei-o nesta receita simples e rápida para reconfortar-me, ao mesmo tempo com exuberância e leveza, às dez e tanto da noite de uma segunda-feira.
Ingredientes:
- 1 colher de sopa de azeite ou óleo
- 1 peito de frango em cubos
- 1/2 cebola picada
- 1 cenoura grande em rodelas finas
- 1 colher de sopa bem cheia de curry em pasta
- 200 ml de leite de coco
- sal a gosto
Como fazer:
- Leve a manteiga com azeite ao fogo até aquecer bem. Frite nela o frango até dourar.
- Acrescente a cebola e a cenoura, refogue até aquecer, misture a pasta de curry e acrescente meia xícara de água quente para dissolver. Ele vai tomar corpo e engrossar o molho lindamente.
- Quando a cenoura estiver macia, porém ainda al dente, adicione o leite de coco.
- Deixe ferver até engrossar como mais goste, prove, corrija o sal e sirva com algum arroz branco aromático (usei arroz de jasmim, polvilhei com gergelim preto). Ao comer, aproveite para relembrar o momentos simples e felizes do passado, depois agradeça pelo privilégio do presente e finalize imaginando as alegrias da semana vindoura.
.*. Post publicado originalmente em de 3 de dezembro de 2007.*.
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11.27.08
Publicado em às 7:38 am pela Dadivosa
Tio Herbert, o Réba, costumava nos saudar em alemão. Perguntava se estava tudo bem - Alles gut?? - e os sobrinhos-netos respondiam, assim que aprendiam a falar, que estava tudo azul - Alles blau, Réba!!!
Para chegar na casa do Réba e da Dada, bastava atravessar a rua, ao lado da ponte sobre o rio que passa ao lado da casa da mãe. Rio esse que transbordava com vontade a cada chuva mais intensa, como aquela de 83, que desabrigou e flagelou muita gente, destruiu Blumenau e deu origem à Oktoberfest. Tal e qual todos que conheço da minha geração, acompanhava pela TV com olhos tristes e assustados , ajudava a separar roupas e latas de leite e o que se podia doar.
Em 83 (ou no seguinte, não lembro bem), tive novos coleguinhas na escola. Eles vinham do Vale do Itajaí, região mais castigada pela cheia. Tinham o olhar ao mesmo tempo triste e assustado e ficaram pouquíssimo tempo, apenas o suficiente para que seus pais reconstruíssem a casa e restabelecessem a rotina. Não tenho lembrança de como ficou a casa do Réba e da Dada nesse ano, nem como foi a enchente na vizinhança. Mas lembro do menino de cabelos quase brancos que não falava com ninguém, não se adaptou, não comia o lanche, só chorava.
Dessa vez o rio que passa ao lado da casa da mãe se comportou, em parte pelas obras de desaçoreamento e de reconstrução da ponte que caiu perto do Natal de 95. Em 95 a Dinahzinha tinha três meses. O Réba não vivia mais, a Dada já tinha ido morar com a vó, acho. Quando a chuva apertou, seguimos o ritual familiar de ligar uns para os outros para saber a altura do rio, perguntar se estavam bem, se já tinha entrado água na casa do tio Paulinho, do Ti Mito, quem já tinha ido ajudar a vó e a Dada. Em seguida, barricada no portão, massa para vedar as portas, erguer móveis, fazer três buracos num saco de lixo para vestir como camiseta, calçar botas de borracha e ir pra rua ajudar os vizinhos e vigiar o rio na madrugada.
O terreno do vizinho da direita é mais baixo, ali sempre enchia. E tínhamos uma rotina, um acordo tácito. Quando a água chegava no terreno do lado, iam todos lá pra casa. Eu punha água pra ferver, fazia o café para varar a madrugada, ajeitávamos comida num cantinho da mesa, as gavetas iam para cima da cama, as roupas para o maleiro, os sofás, freezer e geladeira para cima de latas de tinta reservadas exclusivamente para esse fim, normalmente só por precaução.
Mas em 95 a água começou a subir pelos ralos. Primeiro uma agüinha limpa, depois uma lama vermelha. Quando nos cobriu os pés, choramos todos. Não pelo estrago, e sim pela impotência diante daquilo tudo. Mas não havia tempo para chorar, teríamos muito trabalho pela frente, como o de desparafusar as grades do meu quarto para pular a janela e atravessar a correnteza com cuidado e a ceia de Natal pela metade nas mãos para o abrigo no sobrado do vizinho da esquerda. Acho que o pai fez uma oração, comemos em silêncio e cansaço, sem luz e sem água, na cidade ilhada pela queda de uma barreira na BR-101. Ninguém dormiu.
No dia seguinte, mais café e pão para começar a limpeza. Rodos, vassouras, cada um tirava forças não sei de onde, depois de uma noite em claro de muito erguer coisas, para ajudar a empurrar a lama para fora das casas. Quando o grosso da sujeira já estava lá fora, mais chuva. A água subiu de novo com mais lama, dessa vez só de pirraça, bem mais baixa, ainda assim assustadora. Os rapazes, primos, amigos, namorados, corriam de casa em casa para fazer o serviço mais pesado. Todos se revezavam para ajudar a vó e a Dada, que haviam sido devidamente instaladas no sótão sequinho e terminantemente proibidas de descer. E elas obedeceram, pois o perigo de escorregar na lama ou pegar uma doença era grande.
Depois do susto e do primeiro choro, o clima não era de festa, mas tampouco de tristeza. À medida que a água baixava, a gente se permitia fazer umas macaquices, ‘inticar’ uns com os outros para relaxar, levar mais um café para os tios e primos, rir com o Eduardo que acordou com a água batendo no traseiro, confraternizar como se podia, com pão dormido e margarina, que fosse.
Todos recuperaram o que foi perdido, as casa da mãe foi pintada por dentro e por fora, já não havia mais a marca de lama a dois ou três palmos do chão, carpetes foram trocados, móveis aos poucos substituídos, jardins replantados. A solidariedade a gente agradecia no olhar e nas gentilezas de sempre, quem sabe levando um bolinho recém-assado, ninguém se sentia muito à vontade para relembrar aquelas noites e dias.
Muito menos eu, que hoje acompanho assustada, de longe, as notícias. Dessa vez, menos pela TV e mais pela internet, pelo Diarinho e sites amigos, como o do Dauro e da AnaCris. Segurei as lágrimas o quanto deu, mas fraquejei quando vi que a expressão preferida do Réba e de tantos outros descendentes de alemães do Sul do Brasil tinha virado sinônimo de solidariedade e de uma fantástica mobilização informativa no http://allesblau.net/. O Leitor e a Leitora que quiserem ajudar podem encontrar informações ali.
Sei que em algumas casas o trabalho de limpeza e reconstrução já começou, que o pessoal está fervendo água para ao café e repartindo o pão com os vizinhos e que logo logo vai repintar as casinhas, replantar os jardins, agradecer com o olhar ou uma cuca de banana quentinha. Enquanto isso, toda ajuda é bem-vinda para que fique tudo bem, tudo azul. E para que, aos pouquinhos, eles recomecem a falar e ouvir Alles Gut? Alles Blau!
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11.26.08
Publicado em às 7:51 am pela Dadivosa
Na volta para casa, comprei palmito fresco, tomates bem doces e uns bifinhos simpáticos para o jantar. O palmito foi ao forno com azeite, tomilho e gotas de limão. Os tomates viraram salada e cozinhei umas batatas bonitas. Fiz uma jarra de suco de maracujá, pus a mesa e jantamos. Quando a barriga já estava quentinha e o papo do dia devidamente engrenado, dei-me conta de que poderia ter fotografado os palmitos, suaves, delicados, quase derretendo com as pontas moreninhas.
A mesma coisa aconteceu uns dias antes, em que fiz uma sopa linda e ajeitei tudo para constatar que a bateria da câmera estava mortinha da silva… cozinhar, ainda cozinho, mas e as fotos? Será que perdi o jeito?
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11.01.08
Publicado em às 5:28 pm pela Dadivosa
Sr. Dadivoso esteve hoje com seu Mario, o alfaiate*. Levou as fotos e um impresso com o texto do post e os comentários de seus novos fãs.
Emocionou-se e permitiu a publicação de sua queridíssima figura:



*Ao leitor e à leitora que estranharam a aparição de um alfaiate nesta cozinha, informo que o motivo está aqui.
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10.14.08
Publicado em às 11:43 pm pela Dadivosa

Utensílios afiados, apetrechos para medir, ingredientes que preenchem muitas e coloridas prateleiras, olhos bem treinados, mãos ágeis e ao mesmo tempo cuidadosas, um pouco marcadas por uma espetada aqui e uma queimadura acolá, a obra que toma corpo no calor de muitos graus e uma assinatura inconfundível e despretensiosamente aplicada.
Sempre falo que o sapateiro olha pro sapato, expressão que ouvi pela primeira vez em resposta ladina e desconcertante do namorico de uma prima quando ela, baixinho e com as bochechas vermelhas, avisou que o zíper de sua calça estava aberto em pleno almoço de domingo.
De minha parte, vejo similitudes com a cozinha até no ateliê do alfaiate. Difícil não relacionar os ofícios e comparar facas com tesouras, xícaras e colheres de medida com fitas métricas, formas com réguas de molde, panos de terno com exóticas especiarias e condimentos, ferro quente com fogão, cheiro de roupa passada com o de pão recém-assado, a etiqueta pregada no cós interno da calça ou no forro do paletó com aquele galho de salsinha sobre o guisado ou o pauzinho de canela sobre o bolo de fubá.
E fica ainda mais difícil dissociar a cozinha do ateliê quando seu Mario exibe o resultado de seu trabalho, naquela rara mistura de humildade e orgulho, como a cozinheira que oferece uma provinha do quitute. Pede ao marido que prove a calça para ver se ficou boa, examina concentrado, bota o olhômetro para funcionar, tira um dedinho da barra como quem adiciona uma pitada de tempero e, finda a tarefa, agarra um papo e nos arrebata prum outro tempo, outro mundo, quase.
Faço umas fotos dele, conforme prometido na outra visita. Comento sobre a luz bonita que entra pelas janelas, ele acrescenta que o lugar tem paz e felicidade, penso comigo que são ao mesmo tempo causas e conseqüências de se fazer o que se gosta. “O diretor de uma empresa grande aí às vezes vem aqui só pra conversar…” Impossível não imaginar um senhor de engenho que se despe por uns minutos de todo poder e vai, feito criança, buscar conforto aos pés do fogão de lenha, quem sabe trocar umas palavras sobre o tempo ou sobre a vida com a sábia e discreta cozinheira da família.
“Outro dia ligou assim, no meio do dia, perguntando se podia vir aqui falar comigo. Falei que sim, sempre, é um prazer. E ele veio, sabe? Sentou aqui nesse banco, tomou um café, conversou meia horinha sobre qualquer coisa, depois falou que já estava melhor, que só precisava de uma pausa para conseguir continuar o dia, que tava difícil. A gente fica contente, né?”
A gente também, seu Mario, fica contente. Contente e confortável como na mais aconchegante cozinha, na qual são tantos os carinhos e detalhes que a gente já entra sorrindo sem saber o porquê… Tem a voz macia, o sorriso largo e os olhos doces do calabrês que aprendeu o ofício com o pai. O balé silencioso dos outros senhores que na sala ao lado pregam botões, costuram bainhas e vincam calças com um ferro potente. As prateleiras repletas de tecidos nacionais, ingleses e italianos. As imensas e pesadas tesouras. As fichas de clientes que voltam há mais de 20 anos ou, se não mais podem voltar, deixam em vida recomendações para que os filhos perpetuem a tradição. As paredes decoradas com um croqui amarelado de paletó, um calendário-brinde que não lembro se era de padaria ou de posto de gasolina, uma foto da Calábria acima do retrato dos filhos, um pedaço de couro gravado com dizeres em italiano sobre vender fiado. E tem o café…
Ah, o café! Seu Mario aponta a diminuta cozinha e faz o esperado convite. Pára uns instantes para abrir a torneira do filtro de barro e encher a parte de baixo da cafeteira. De um pote de plástico amarelo, tira a medida certa de pó. Com um isqueiro branco, acende o fogãozinho de duas bocas, daqueles que se pode levar em acampamentos. Pergunta se é com açúcar. É sem, por favor, que esse café é bom demais pra pôr açúcar. Na parede oposta à pia, uma prateleira abriga um aparelho de som de onde sai a voz do Charles Aznavour. ‘Que c’est triste venice’, como por encanto, parece uma canção alegre. Gosto muito dele, seu Mario, que música linda. Gosto de música boa, diz, mostrando os últimos CDs que trouxe da Itália, as únicas compras que fiz por lá, sorri.
O líquido começa a subir e borbulhar. Na minúscula cozinha, tento me equilibrar numa cadeira para conseguir registrar a cafeteira. Ela tem um site de comida, seu Mario, seu café vai ficar ainda mais famoso, diz o marido. Seu Mario sorri, não sei se ele é muito ligado em Internet. Faço também uma foto dos dois, lindos, sorridentes, abraçados, equilibrando as xicrinhas. Mostro a eles, ih, você cortou meu braço, mais uma. Tento enquadrar melhor dessa vez, bem ligeiro, para aproveitar o café fumegante. É cheiroso, forte, energizante, doce como o sorriso do alfaiate.
Peço permissão para mais umas fotos. Com a tesoura, na frente dos ternos, mostrando a etiqueta personalizada. Ele termina de acomodar as duas calças no cabide, agradece pelas fotos, eu é que agradeço, pede permissão para me beijar no rosto, permissão concedida.
“Essas roupas vão trazer muita prosperidade”, abençoa-nos, como quem diz que o bolinho vai adoçar a vida. Falo que da próxima vez levarei as fotos para ele guardar, ele diz que vai pendurar na parede. Penso agora em levar também essas palavras, para que ele saiba que a motivação desse texto não foi a foto, que ficou bem mais ou menos, e sim o amor com que exerce seu ofício de cozinhar roupas e o prazer com que costura um café.
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10.07.08
Publicado em às 9:16 pm pela Dadivosa

Sobrou só um ovo em casa e tem ganas de bater um bolinho rápido? Experimente esta receita de muffin, que vi no site de uma marca, mas acabei usando o chocolate de outra
Não carece de batedeira nem muitos utensílios, é daquelas receitas boas para fazer com crianças, que podem ajudar a picar a banana, peneirar e separar os ingredientes, misturar os líquidos, raspar a tigela… porque não resisti, deixei sobrar de propósito, comi bem umas duas colheradas e arrisco que a massa crua chega a ser quase mais gostosa do que o bolinho!
Ingredientes:
- 2 xícaras de farinha de trigo
- 1 xícara de açúcar
- 2 colheres de sopa de chocolate em pó daquele dos padres ou similar, não recomendo substituir por achocolatados)
- 1/2 colher de sopa de fermento em pó
- 1 colher de chá rasa de canela em pó
- 200g de iogurte natural
- 1 ovo
- 1/2 xícara de óleo de canola (manteiga sem sal derretida também deve funcionar)
- 2 bananas-nanicas
Como fazer:
- Ligue o forno para preaquecer. A receita original fala em 180 graus, mas em casa tive de aumentar para 240.
- Peneire os ingredientes secos numa tigela.
- Em outra, misture o iogurte, o ovo e o óleo com o garfo mesmo só até homogeneizar. Junte essa mistura aos secos e dê uma revolvida de leve, nada de ficar batendo! É só meia-volta mesmo, não faz mal que não tenha misturado.
- Descasque e pique as bananas e junte-as à mistura. Dê mais uma mexida, somente para incorporar. O segredo de um muffin fofinho é esse, não bater muito nem usar batedeira. Se a massa tiver uns gruminhos, tanto melhor!
- Distribua a massa nas forminhas e asse até que ao espetar um palito no centro da massa ele saia limpo. Diz a receita original que rende 12 muffins. Dos meus, foram 15, uns mais parrudinhos, outros mais modestos, todos bem apanhados e cheirosos.
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10.06.08
Publicado em às 10:47 pm pela Dadivosa
Sorrio um sorriso quase sinistro toda vez que leio esses versinhos. Penso que algum cozinheiro-mor está a reger o mundo, em seu avental salpicado de farinha, colher-de-pau e fouet em punho quando, ao tentar fechar a gaveta dos talheres com um golpe de quadril, esbarra na bolsa, bate a cabeça nas panelas penduradas e lança o dólar pelos ares…
Em tradução livre, desimpedida, sem rima e com muito menos charme, as palavras do francês ficariam assim: Um cozinheiro, quando janto/ Parece-me um ser divino/Que do fundo de sua cozinha/Governa o gênero humano.
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09.22.08
Publicado em às 11:16 pm pela Dadivosa

Dizem que o bom mesmo para fatiar regular e finamente qualquer vegetal é a tal da mandoline, espécie de ralador manual afiadíssimo que, nas espécies mais garbosas, exibe sua lâmina ultra-cortante enquanto equilibra as patinhas delgadas sobre a bancada da cozinha e oferece seus préstimos a criaturas bastante menos estabanadas do que eu. No fim de semana uma dessas me capturou a atenção pela vitrine. Cheguei mais perto, peguei a caixa, olhei, namorei, bisbilhotei e resolvi que só ia comprar um utensílio de tamanha periculosidade quando conseguisse a proeza de não me cortar com minhas facas cegas por três meses.
Para cortar essas batatas assim, quase transparentes de tão finas, empreguei uma prosaica faquinha serrilhada de churrasco, daquelas com cabo de madeira, com a ponta meio torta e os dentes meio gastos. Logrei meu intento e, por hoje, nada de lascas nas falanges, furos nas pontas dos dedos ou manicure arruinada. Imbuída de tanta concentração para não decepar os dedos, optei por uma receita muito fácil, rápida e rasteira:
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09.18.08
Publicado em às 8:00 pm pela Dadivosa

É uma pena que os textos das receitas publicadas no site do programa Menu Confiança sejam assim, tão desabridos, burocráticos, sem sal. Adoraria que a redação fosse mais cuidadosa, com explicações um pouquinho mais claras, quem sabe com os comentários divertidos e um pouquinho do sotaque do Claude Troisgros.
Ontem, enquanto preparava esse Namorado Crocante com Molho Antiboise, tentei lembrar de alguns detalhes do programa assistido há um tempo (o azeite ia todo para o refogado, ou uma parte era adicionada no final? quanto vai de urucum, uma pitadinha ou uma pitadona? o trigo empana o peixe todo ou só um lado?), mas tudo o que me vinha à mente era o sotaque do homem: namorrádo, crrocõntch, orrientále, tomááta…
Tirando o fato de que estorriquei metade dos filés, e que a quantidade de ovos (quatro, para besuntar quatro filés de um lado só!) devia estar errada, o prato é facílimo, rápido, uma delícia e não exige nenhuma habilidade de chef. É divertido empanar dum lado só com cubinhos de pão e esse molho, ah, esse molho antiboise deixou o peixe ainda mais gostoso, oferecido, cheio de preguiça, facinho-facinho, como se tivesse acabado de acordar, ainda na cama quentinha.
A receita original está lá no site do programa, para cadastrados. Partilho aqui, com o Leitor e a Leitora, como o prato foi reproduzido em meus domínios:
Namorado Crocante (para 2)
Ingredientes:
- 400g de namorado, em 4 filés
- sal e pimenta a gosto
- farinha de trigo para empanar (calculo mais ou menos meia xícara, um pouco deita-se fora, não há muito jeito)
- 1 ovo
- 3 fatias de pão de forma
- azeite para grelhar o peixe
Como fazer:
- Com uma faca de serra, corte as fatias de pão em cubos bem pequenos e deixe-os num prato fundo.
- Tempere os filés com sal e pimenta. Noutro prato, despeje a farinha de trigo e passe os filés por ela, dando batidinhas em seguida para tirar todo o excesso. Gosto de deixar só uma camada bem fininha, só para tirar a umidade o suficiente para o peixe se agarrar com o ovo.
- Num terceiro prato, bata o ovo ligeiramente, só até misturar. Pegue cada filé com as duas mãos e delicadeza, encoste um dos lados no ovo para molhar e fazer uma cola e, em seguida, pressione o filé nos cubinhos de pão, lado com ovo para baixo, e reserve.
- Aqueça um fio de azeite na frigideira em fogo beeeeem baixinho e deite ali o namorado, lado com pão para baixo, até dourar. Em seguida, adicione mais um fio de azeite e, ainda no fogo baixo, grelhe a outra banda, aquela que ficou pelada. Nos primeiros eu fiz certo, fiquei de olho, volta-e-meia afastava a frigideira do fogo, juntava mais um pouco de azeite e o pão ficou linda e delicadamente tostado. Da metade pro fim, entretanto, atendi telefone, botei a mesa, relaxei, me achei a supercompetente, fiquei de frozô, de trelelê e carbonizei, praticamente ‘asfaltei’ o empanado. Com muito custo, consegui separar o piche do peixe, troquei de frigideira e finalizei o cozimento, de modos que metade da receita virou somente um namorado grelhado envolto numa nada sutil ‘névoa ambiente com toques de fumacê’. Ao Leitor e à Leitora, recomendo concentração e que deixem para grelhar o peixe quando tal do molho antiboise estiver no jeito, só para garantir
Molho Antiboise
Se o peixe eu fiz tal e qual, minha memória, a despensa e o supermercado faltaram comigo, de modo que algumas substituições foram necessárias.
Ingredientes:
- 4 tomates sem pele nem sementes, em cubinhos
- 1/2 colher de cebola beeeeem picadinha
- 1 dente pequeno de alho picado
- 60 ml de vinagre de vinho tinto
- 30 ml de molho de soja
- 75 ml de azeite extra virgem (desculpem-me pelos números quebrados, é que fiz metade da receita)
- 1 colher de chá de grãos de mostarda (a receita pede coentro em grão, mas não havia para comprar)
- Pimenta malagueta ou Mole Mexicano a gosto (esqueci!)
- 1/2 colher de chá de colorau (não tinha urucum em casa, uma pena)
- Salsa picada (aqui foi a memória mesmo, acabei por usar orégano fresco da micro-horta e ficou ótimo)
- Sal a gosto (recomendo uma pitadinha de nada junto com a cebola, ou que você adicione só no final, pois o shoyu já é salgado)
Como fazer:
- Numa frigideira grande, aqueça o azeite. Nele refogue a cebola e o alho. Quando estiverem transparentes, adicione o tomate. Deixe cozinhar em fogo baixo por 20 minutos. A receita mandava cobrir a frigideira, li errado e deixei descoberta, mas não deu problema.
- Desligue o fogo, incorpore os demais ingredientes, prove o sal e sirva.
No programa, o Claude serviu esse peixe com vagem oriental, que nada mais é do que o vegetal frito rapidamente numa panela repleta de óleo fumegante. Deve ser bom, mas preferi cozê-las no vapor. Para servir, arrume as vagens no prato, cubra com um pouco do molho e coroe tudo com o namorado crocante, todo pimpão.
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09.13.08
Publicado em às 1:29 pm pela Dadivosa

O Leitor e a Leitora certamente já tiveram seus episódios de arroz ‘unidos venceremos’, quando os grãos se agarram em longos abraços e beijos apaixonados. Dentro de minhas panelas, é freqüente observar que eles fizeram juras de amor eterno até que a boca os separe, ou simplesmente resolveram fazer uma festinha daquelas e estão num agarramento generalizado. Essa saliência toda não é de todo má, pois já vi o olho de muito conviva brilhar de desejo ao equilibrar na colher placas brancas e fumegantes da mais coesa papa.
Há dias, entretanto, que se quer algo mais relaxado, sem compromisso ou amarras, algo assim como um flerte assanhado, uma admiração a distância ou amor platônico entre os grãos cozidos. Em momentos assim, ponho água para ferver, adiciono sal, despejo o arroz cru e cozinho como se fosse macarrão, provando de vez em quando para não perder o ponto. Uso uma peneira grande para escorrer e sirvo os grãos assim, soltinhos, solteiros, desimpedidos e contentes com sua individualidade.
Namoricos de verão, amizades coloridas, rolos, ficantes, pretês, paqueras, tico-tico-no-fubá… as variações desse arroz soltinho são quase tão numerosas quanto os nomes atribuídos aos relacionamentos despretensiosos. Para variar a receita, pode-se:
- Dissolver na água um caldo de galinha ou legumes
- Temperar a água do cozimento com uma folhinha de louro, um dente de alho, ou especiarias mil, como cardamomo, canela, anis estrelado
- Regar com azeite do bom e salpicar pimenta moída na hora
- Mesclar ervas frescas picadinhas ao arroz pronto
- Envolvê-los todos num molho bem encorpado
- Na hora de servir, coroar o arroz já escorrido com um pedacinho de manteiga e vê-la derreter de amores por esses indivíduos tão independentemente bem-resolvidos
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