por Dadivosa
Pois, três meses e um bocadinho de minha estada em terras espanholas e achei por bem dar uma sacudida na preguiça e reunir aqui um apanhado cronologicamente aleatório (e sentimental-dadivosamente relevante) do que a memória ainda permitir (sem fotos, por enquanto, que a meta do dia é só escrever):
Clique aqui para continuar a ler 93 dias e uma inFoxicação culinária
por Dadivosa

Em primeiro plano, o aïoli (aquela espécie de maionese montada na base de bastante alho e azeite de oliva) e o molho que lhe confere a “braveza”, feito com tomates e pimentón (páprika) picante.
As da foto foram consumidas na cafeteria do Reina Sofía, após enfrentar muita muvuca da gringaiada que, como eu, aproveitou o sábado pra ir ao museu. O café, felizmente, não teve acotovelamentos. E se as patatas estavam bravas e o aïoli pungente, o clima estava ameno e o ambiente, tranquilo.
por Dadivosa
… pois encontrei leite condensado (em latas de 740g), um chocolate em pó que funciona bem e o granulado, que aqui ganha o nome de fideos de chocolate.
Os da foto foram pro domingo de Páscoa.
.*. Atualização .*.
Olhando os comentários, fiquei com a impressão de que havia dito não ter encontrado o leite condensado… pois li e reli e reforço que sim, queridos, eu encontrei o dito, em todos os mercados por onde estive, diga-se
por Dadivosa
Resolvi averiguar a portinha do tio que vende queijos e frios, me parecia simpático. A pequena fila de moradores locais àquela hora era indício de que o lugar era quente. Fiquei de butuca: a primeira senhora levou jamón ibérico, salame e queijo meia-cura. Tudo muito apetitoso, mas um pouco forte para meu paladar estropeado por uma almoço ruim (coisa rara desde que cheguei, conjuminou uma salada com bicho e gosto de inseticida, lasanha com alguma coisa que não descia, sobremesa pesada por demais).
Clique aqui para continuar a ler Remédios Locais
por Dadivosa

“Oh, j’ai cassé un oeuf!” foi uma das primeiras frases que aprendi em francês, junto com a Marselhesa e “J’ai cassé le DO de ma clarinete / J’ai cassé le DO de ma clarinete/ Ah, si papa il save ça/ tralala…”
A frase do ovo quebrado, se a vista não me pisca, estava lá para ensinar os números, eram slides (coisa mais antiga) de uma visita à feira livre. Tinha também as pommes-de-terre, que na minha cabeça não eram batatas, e sim maçãs desesperadas, presas n’algum túnel junto com as minhocas. Não me recordo de como acabava a história do ovo quebrado, se o feirante ficaria bravo e cobraria pelo estrago, ou se abriria um sorriso e deixaria pra lá.
Clique aqui para continuar a ler Pas besoin de pomme-de-terre
por Dadivosa
Aqui se diz picatostes para croûtons. Cojines são almofadas. Almohadas são os travesseiros, mas travesero é travesso. Sábanas são lençóis, bajera pro de baixo, encimera pro de cima. Encimera é também a bancada da cozinha.
Torrijas sao como as rabanadas que comemos no Natal, só que aparecem é na Páscoa, rebanada é tão simplesmente uma fatia de pão. Uma fatia igualzinha àquela que minutinhos atrás cortei e fritei em azeite quente pra fazer picatostes.
.*.
As palavras e as coisas é o título de um livro de Foucault. Tive contato intenso com ele, o livro, não o Messiê Fucô, quando parei de fazer a ponte Rio-São Paulo toda semana, despedi-me da primeira e fui desbravar a segunda. Gosto por demais desse título, As Palavras e as Coisas, a despeito de pouco lembrar do miolo além da parte que fala sobre ‘As Meninas’, aquele quadro do Velásquez que tem metalinguagem, uma luz incrível, espelhos intrigantes, portas entreabertas, olhares expressivos e mil reflexões possíveis a fazer. Taí, vai ver é por isso que ando com esse nome na cabeça desde que pisei nessa terra
.*.
Chamei de Parte I, Leitor e Leitora queridos, porque sei que tenho muito ainda a descobrir. E se você tem aí na ponta da língua uma dica, um causo, uma palavra, uma coisa, deixe aqui um comentário, que certamente vai aparecer na Parte II, na III e quantas mais houver.
por Dadivosa
Pois peleando estou com as gôndolas do supermercado (cadê granulado pra brigadeiro? qual será a melhor azeitona? levo ou não levo os pimientos de piquillo?), com o fogão de duas bocas vitrocerâmico (para fazer um almoço para seis), com o forno preguiçoso (não terminou de cozinhar as cebolas nem as batatas do bacalhau, que se escondeu todo no fundo, de vergonha, por supuesto!), com um coentro maldito que se disfarçou de salsinha, todo pimpão no vaso de plástico marrom, com a geladeira de brinquedo, do tamanho dum frigobar que, feito leão de chácara, barra na porta uma pá de coisa porque a festa já está lotada lá dentro…
Peleia boa, essa de descobrir novas possibilidades, de desafiar os neurônios dadivosos – que vinham em estado de hibernação, diga-se – de transformar uma ida ao mercadinho de conveniência em exploração antropo-científico-culinário-social, de precisar planejar muitíssimo cada compra para não desperdiçar, de me apaixonar pelos iogurtes, natillas, arroces con leche e cremas catalanas em potinhos de vidro e de cerâmica, de ter menos que o mínimo de utensílios na cozinha e, ainda assim, preferir estar nela ao sair para comer, nem que seja para preparar um singelo sanduíche de pão integral com queijo de cabra e ‘pechuga de pavo’ tostadinho na frigideira, que não tem erro, acompanhado de uma saladinha e uma cerveja sem álcool (não riam, chama Laiker e acho uma delícia).
Isso tudo significa que está funcionando meu intento de garantir pelo menos uma nova coisa boa por dia para confortar o coração. E que da maior peleia de todas, contra a saudade que é tanta, saio chamuscadinha e escoriada, mas continuo viva e forte!
por Dadivosa

Nem só de bacalhau e petiscos vivem as gorditas olivas em época de Semana Santa. Essas daí – pasmem, meus queridos – são doces, feitas de chocolate. O ‘caroço’ é um crocante recheio de praliné envolto em delicado wafer.
Diz a embalagem:
Aceitunas Sevillanas
Centro crujiente hecho de finísimo hojaldre, relleno de praliné y cubierto de chocolate negro o blanco
Deliciosas até para quem não se empolga muito com doces. Na Pasteleria Mallorca tem.
por Dadivosa

Aceitunas
Chef Norberto Jorge nos recebeu à porta, vestindo calças coloridas, com sua mamá Carmen, de cabelos de algodão e blush aplicado a rigor. Tão logo chegamos, esquecemos do caminho escuro, da pequena horda de mendigos alcoolizados, da região nada glamourosa onde ficava o restaurante.

Provamos um azeite siciliano, que cheirava a tomates verdes e goiaba, um espanhol que sabia a ervas e um balsâmico cremoso, envelhecido naqueles barris empilhados ali, de fronte à mesa, logo na entrada.
Clique aqui para continuar a ler A falibilidade é benigna